"Apenas três pessoas juntas têm ativos equivalentes ao produto bruto anual dos 48 países mais pobres, onde vivem 600 milhões de pessoas [...], pouco mais de 200 pessoas, com ativos superiores a US$1 bilhão cada [têm] o equivalente à renda anual de 45% de toda a humanidade (mais de 2.7 bilhões de pessoas)".

Washington Novaes

sábado, 16 de julho de 2016

Fala, professor

         

terça-feira, 28 de junho de 2016

Rolezinhos de afirmação consumista --- Dezembro de 2013

Há décadas que se instila em todos, sobretudo e até mesmo nas crianças, a ideologia do consumo – consumo pelo consumo - de toda sorte de porcaria: vitaminas e uma infinidade de outros placebos fármacos; cigarros que levam ao sucesso; bebidas que trazem as mais belas mulatas, loiras, ruivas e devassas dos mais variados tons; pares de tênis que chegam a custar mais que uma rodagem completa de pneus novos para um carro popular; óculos de sol maiores que as faces; roupas de marcas caras; eletrônicos que se tornam obsoletos em apenas um semestre e mais uma lista interminável de quinquilharias tão inúteis como roqueiros envelhecidos prematuramente e que se tornam “rebeldes a favor do sistema”; e fica um monte de gente querendo encontrar esquerdismo revolucionário nas travessuras dos moleques. Nada disso. O que há de mais explícito nesse fenômeno, além da reivindicação de participar daquele ambiente e de se afirmar como consumista, são as reações que ele provoca.


A PM agiu com a sua tradicional e propalada truculência. Aliás, prática muito mais antiga do que se costuma dizer, pois há um hábito generalizado de se atribuir a violência da PM a uma herança da última ditadura, só que não, não só: a história da PM nunca esteve ligada à defesa dos cidadãos e da cidadania como um todo, sempre esteve ligada à proteção do patrimônio e do patrimonialismo, fosse para garantir as regalias e monopólios dos senhores de escravos ou de banqueiros, em uma palavra, toda a vida prestou serviços ao “establishment”.

Força policial criada para controlar os pobres e perseguir seres humanos escravizados que buscavam liberdade, desde os primórdios de sua existência seus métodos de ação sempre foram a brutalidade e a inclemência. Com a violência na sua origem e a nada dignificante tarefa de defender privilégios desde sempre, essa instituição ainda por uma ironia paradoxal e sórdida costuma formar suas tropas com egressos das massas dos desvalidos que buscam a corporação como alternativa de mobilidade social. Uma vez dentro da corporação o praça é submetido a um processo de desumanização e a um endoutrinamento que em muitos casos acaba transformando radicalmente os outrora jovens humildes de periferias e favelas em frios cumpridores de ordens superiores; uns em corruptos achacadores contumazes nas patrulhas diárias; outros em traficantes de drogas e “milicianos” e até mesmo alguns em monstros assustadores que executam a parte mais crua da faxina étnica em curso. Sem a vocação, o treinamento e a orientação para o combate ao crime, essas brigadas militares acabam se envolvendo em uma sucessão de chacinas; tiroteios; extermínios; perseguição e morte de camponeses sem-terra; repressão de trabalhadores e quaisquer outros manifestantes com balas de borrachas; gás de pimenta; cassetetes e toda sorte de armas, inclusive letais. Essas práticas são tão disseminadas que há uma infinidade de imagens disponíveis que ilustram e falam por si. Os antropólogos do futuro tratarão disso como massacres fratricidas. Com um histórico desses não poderíamos esperar que agisse diferente nos chamados rolezinhos, simplesmente, confirmou a tradição.




Outra reação previsível foi a da Casa-grande que correu a pedir socorro ao judiciário. Este, óbvio, não negou fogo, mais que depressa concedeu liminar proibindo tais eventos. Mais uma demonstração de parcialidade e solidariedade de classe desse indefectível braço “legal” de sustentação dos interesses patrimonialistas que, nos últimos anos, em substituição aos desgastados e hoje acanhados militares, escancara de vez o que alguns renitentes se recusam a admitir: o “exército togado” perdeu totalmente a vergonha de servir como última instância de interesses dos senhores do capital.




A grande mídia, é claro, assopra um pouquinho e morde muito. Dá espaço a um ou outro analista mais sério, mas o que predomina é um noticiário que trata a travessura como se fosse um arrastão provocado por uma perigosa turba ensandecida e com isso acaba inoculando pânico numa parcela da classe média já tão sensível às opiniões dos chamados especialistas de prateleiras, sempre prontos a criminalizar tudo que venha do andar de baixo. O mais escancarado dos muitos relatos que li na defesa das seculares prerrogativas da Casa-grande está contido num parágrafo de um artigo do jovem jornalista Rodrigo Constantino da gloriosa e infalível Veja - parece um personagem do Antônio Prata – que externa com rara coragem o que vem a ser a opinião dele e de boa parte dos “bem-nascidos”. Leiam, portanto, as palavras desse porta-voz da sensatez:

 “Não toleram as “patricinhas” e os “mauricinhos”, a riqueza alheia, a civilização mais educada. Não aceitam conviver com as diferenças, tolerar que há locais mais refinados que demandam comportamento mais discreto, ao contrário de um baile funk. São bárbaros incapazes de reconhecer a própria inferioridade, e morrem de inveja da civilização (…) Os “rolezinhos” da inveja precisam ser duramente repreendidos e punidos. Caso contrário, será a vitória da barbárie sobre a civilização.”


Bem, devo confessar que admiro o destemor do missivista para com o ridículo, afinal, não é pra qualquer um; o sujeito conseguiu se destacar em meio a tanto despautério. Já, atribuir “a uma inveja” como o sentimento motor das hordas juvenis talvez seja a parte hilariante da digressão do rapaz. Há, é claro, certo arroubo juvenil em externar de forma tão direta o sentimento que não é somente seu, é também de muitos dos seus leitores e colegas de profissão, contudo, é sempre prudente ser mais discreto, porque assumir esse radicalismo pode ser um caminho sem volta. E, quando diz que “precisam ser duramente repreendidos e punidos”, passa a imagem de certo pendor pela punição vingativa e moralista, típico sentimento atrasado sempre característico de sociedades hipócritas e desiguais. Eu preferiria não ter a certeza de que ele tem consciência do que seja repreender e punir duramente na visão das nossas amáveis forças da ordem. Mas muito pelo contrário, um elemento desses só faz confirmar em mim a crença de que todo moralismo é falso, e no caso específico, vejo nele ainda um entusiasta no uso da força, da borrachada como vingança, panaceia reparadora de um sem-número de males e necessária para garantir a paz para essas criaturas “mais educadas e civilizadas”.




O fato é que, olhando daqui do Extremo Sul da Bahia, com essa distância física, o que vejo é gente excluída, por higienismo e séculos de injustiças, de determinados espaços de consumo querendo participar deles. Em certo sentido é uma vitória da ideologia do consumo fútil e supérfluo sobre a luta por cidadania, esta sim, uma bandeira da esquerda e sem expressão e apelo nesses rolezinhos de reivindicação consumista, que nada mais são que jovens de periferia lutando para ter participação no universo mesquinho e individualista dos mais educados e civilizados. Que essa oposição capenga que temos tente tirar proveito político e eleitoral, a gente até entende, mas, setores da esquerda mais radical empunharem essa bandeira, aí já chega a ser patético. Nessa batalha a esquerda é apenas espectadora, derrotada de antemão. Pelo menos é só uma batalha e não a última e ainda ajuda a escancarar o apartheid em que vivemos, isso para os incautos que acreditam no mito da democracia racial brasileira. A meninada educada para consumir sem questionar cansou de frequentar apenas como serviçal, agora quer passear, comprar e namorar nos mesmos templos reservados que essa gente indiferenciada ergue com suas barreiras de aparências, exatamente para isso: se refugiar justamente deles, os mestiços, os diferenciados, massa amorfa e indigesta que resultou de mais de quinhentos anos da mais vil e cruel exploração humana do mundo moderno.


 Ninguém conseguirá viver impunemente numa gigantesca comarca da desigualdade como a nossa.