"Apenas três pessoas juntas têm ativos equivalentes ao produto bruto anual dos 48 países mais pobres, onde vivem 600 milhões de pessoas [...], pouco mais de 200 pessoas, com ativos superiores a US$1 bilhão cada [têm] o equivalente à renda anual de 45% de toda a humanidade (mais de 2.7 bilhões de pessoas)".

Washington Novaes

sexta-feira, 14 de março de 2014

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

À Minha Revelia

 

Nunca fui simpatizante da ideia do Brasil sediar uma copa do mundo de futebol, aliás, sou contrário a que se realize aqui qualquer megaevento desses, incluindo aí a olimpíada. Considero tudo isso supérfluo e desproposital para um país com tantos atrasos institucionais, infraestruturais, sociais e tudo mais que acabe com ais. Mas não fui consultado sobre isso e resolveram trazê-los assim mesmo, à minha revelia, a copa e também a olimpíada.

 Boa coisa não poderia sair ao se colocar no mesmo balaio a FIFA e a CBF com suas reputações nada recomendáveis; a nossa tradição de superfaturamentos onde políticos e empresários extremamente desonestos lambuzam-se com qualquer possibilidade de uma grande obra (para a copa são dezenas de grandes obras); acrescente as omissões e conivências de autoridades de todos os poderes, logo, com a justificativa das obras cometeu-se toda sorte de desmandos. As distorções são muitas e para ficar num só exemplo: governantes aliados a especuladores imobiliários expulsam populações que vivem nas áreas beneficiadas pela referidas obras e também em seu entorno mandando-as para periferias distantes num flagrante caso de gentrificação, uma verdadeira faxina elitista. Em resumo, as áreas beneficiadas pelas obras ganham enorme valorização gerando lucro para os especuladores e o povo é varrido para longe, ainda provocando a dispersão de comunidades tradicionais e a extinção de suas culturas e relações seculares.

Houve tempo de sobra para se evitar essa copa, isso antes que se iniciasse a multibilionária preparação que a envolve, podia-se fazer um plebiscito ou um referendo, sei lá, alguma forma de consulta à população. Só que demorou, a essa altura do campeonato, Inês é morta. Ser contra a vinda desses megaeventos é um direito que se tem, sabotar da maneira grosseira como estão fazendo é que não é sensato. Agora, depois que as obras se encontram em fase de acabamento, não existe exagero em dizer que tais eventos já vieram e que a histeria desses poucos revoltosos não passa de choro de derrotados.

As características pouco democráticas dos envolvidos ficam patentes logo no nome infeliz que resolveram dar ao movimento: “Não Vai ter Copa” é de uma prepotência ímpar. Alegar desperdício de dinheiro público e sair por aí destruindo o patrimônio público e privado não é lá muito coerente, nem útil. Se quiserem mesmo chamar a atenção para os numerosos descalabros que de fato existem, ótimo, organizem manifestações e usem a visibilidade que a copa pode proporcionar para tornar do conhecimento mundial as suas causas, denúncias, propostas e tudo mais. Trata-se de excelente oportunidade para isso. E dou uma sugestão: apontar a nossa multissecular e descomunal desigualdade social como a principal mazela a ser combatida e exigir que os ricos comecem a pagar impostos pra valer em nosso país, e fazer desta a grande bandeira de todos que de fato querem um Brasil mais justo.
Seria este o primeiro passo para a solução de todos os outros males que nos afligem, pois é aí que reside o busílis. Contudo, essas pessoas que tentam melar a copa estão deixando claro que não estão preocupadas com o país e muito menos com o seu povo.
O que está por trás dessa campanha é oportunismo de uns; certos carreiristas políticos com medo de perder o “timing” de suas candidaturas; grupos e pessoas que se sentiram alijadas na formação da atual coalizão governamental ou preteridas na escolha para alguma sucessão; rebeldia tardia de alguns tontos em busca de uma desculpa para extravasar o ódio que lhes é inoculado diuturnamente em suas mentes e corações. Tudo isso com o apoio inestimável dos latifúndios midiáticos e seus exércitos de penas de aluguel, muitos inclusive, podemos dizer sem medo de errar, notórios incendiários.

Sobre a participação da extrema esquerda não se tem muito a acrescentar, uma vez que a sua contribuição para tais acontecimentos é rigorosamente igual ao papel que desempenhou nos idos de 1964 quando atuou como inocente linha auxiliar dos interesses mais conservadores. Deixa-nos apenas a lamentável certeza de que nada aprendeu com a história.
É mais do que evidente que o objetivo dos adeptos do Não Vai ter Copa – salvo raras exceções que só existem para confirmar a regra - não passa de uma tentativa de desgastar a candidatura oficial à reeleição ao Planalto e para isso não estão medindo esforços, chegando mesmo a estumar essa matilha hidrófoba das ruas para criar o clima de fim de mundo e produzir as imagens necessárias para uso midiático e com isso mexer com o emocional da imensa maioria silenciosa e, como sempre, precariamente informada que assiste a tudo, perplexa, para no final ser convocada a decidir sob o impacto desses fatos, isso com abundância de imagens negativas e as tradicionais dramatizações histriônicas dos bufões de sempre.

Trata-se de uma aposta no escuro e, como tal, sem nenhuma previsão de que possa funcionar. Afinal, a realização da copa no Brasil, segundo pesquisas publicadas recentemente, tem apoio de 64% da população, apenas 25% são contra, 9% são indiferentes e 2% não sabem responder. Diante desses números fica difícil não enxergar que há uma sabotagem em curso, não contra a copa e sim contra o Governo, que é transitório, só que os prejuízos não serão apenas deste Governo, mas do país inteiro, o que escancara o oportunismo irresponsável dessa aventura eleitoreira. O Governo que aí está tem um sem-número de defeitos e me parece muito fácil fazer oposição a ele. Só que a oposição política e a grande mídia opositora desejam mesmo é a volta ao passado, passado esse de mais privilégios para os de sempre e não os avanços que a maioria necessita e deseja. Como já foi dito, essa gente sofre é de nostalgia da senzala.
Chama a atenção também o fato da última copa ter sido realizada na África do Sul – com o seu abismo social e a segregação racial que só acabou no papel - e os que hoje criticam a sua realização no Brasil terem achado absolutamente normal isso.

Outra questão intrigante pela sua dubiedade é a posição da rede de comunicação monopolista e beneficiária exclusiva na transmissão do evento, portanto, é importante saber até onde a Rede Globo vai ajudar na implantação de um ambiente de caos que além de tudo pode não dar em nada ou até mesmo surtir o efeito contrário ao desejado por esse consórcio de arrivistas.

Quem quiser secar o escrete nacional, pode fazê-lo, só não tenha a ilusão de estar inventando algo, pois sempre existiu esse tipo de torcedor mal humorado. Bom, de minha parte posso reafirmar é que preferia vê-la realizada em outras paragens, contudo, apreciador que sou desse incomparável esporte não só vou acompanhar todos os jogos que a minha disponibilidade de tempo permitir, como ainda torcer pela nossa seleção, como sempre faço. Torcer também para que a luta pelo fim da brutal desigualdade e outras reivindicações que sejam igualmente pertinentes conquistem adeptos e chamem a atenção de todo o planeta; torcer para que as chamadas obras de mobilidade urbana e outras que estão sendo realizadas melhorem a vida das pessoas para além da copa; que sirva ainda para consolidar uma imagem positiva do país e que seja essa uma grande e bela copa do mundo.

 

sábado, 18 de janeiro de 2014