Nunca fui
simpatizante da ideia do Brasil sediar uma copa do mundo de futebol, aliás, sou
contrário a que se realize aqui qualquer megaevento desses, incluindo aí a
olimpíada. Considero tudo isso supérfluo e desproposital para um país com
tantos atrasos institucionais, infraestruturais, sociais e tudo mais que acabe
com ais. Mas não fui consultado sobre isso e resolveram trazê-los assim mesmo,
à minha revelia, a copa e também a olimpíada.
Boa coisa não poderia sair ao se colocar no mesmo balaio a FIFA e a CBF
com suas reputações nada recomendáveis; a nossa tradição de superfaturamentos
onde políticos e empresários extremamente desonestos lambuzam-se com qualquer
possibilidade de uma grande obra (para a copa são dezenas de grandes obras);
acrescente as omissões e conivências de autoridades de todos os poderes, logo,
com a justificativa das obras cometeu-se toda sorte de desmandos. As distorções
são muitas e para ficar num só exemplo: governantes aliados a especuladores
imobiliários expulsam populações que vivem nas áreas beneficiadas pela
referidas obras e também em seu entorno mandando-as para periferias distantes
num flagrante caso de gentrificação, uma verdadeira faxina elitista. Em resumo,
as áreas beneficiadas pelas obras ganham enorme valorização gerando lucro para
os especuladores e o povo é varrido para longe, ainda provocando a dispersão de
comunidades tradicionais e a extinção de suas culturas e relações seculares.
Houve tempo de sobra para se evitar essa copa, isso antes que se iniciasse a
multibilionária preparação que a envolve, podia-se fazer um plebiscito ou um
referendo, sei lá, alguma forma de consulta à população. Só que demorou, a essa
altura do campeonato, Inês é morta. Ser contra a vinda desses megaeventos é um
direito que se tem, sabotar da maneira grosseira como estão fazendo é que não é
sensato. Agora, depois que as obras se encontram em fase de acabamento, não
existe exagero em dizer que tais eventos já vieram e que a histeria desses
poucos revoltosos não passa de choro de derrotados.
As características pouco democráticas dos envolvidos ficam patentes logo no
nome infeliz que resolveram dar ao movimento: “Não Vai ter Copa” é de uma
prepotência ímpar. Alegar desperdício de dinheiro público e sair por aí
destruindo o patrimônio público e privado não é lá muito coerente, nem útil. Se
quiserem mesmo chamar a atenção para os numerosos descalabros que de fato
existem, ótimo, organizem manifestações e usem a visibilidade que a copa pode
proporcionar para tornar do conhecimento mundial as suas causas, denúncias,
propostas e tudo mais. Trata-se de excelente oportunidade para isso. E dou uma
sugestão: apontar a nossa multissecular e descomunal desigualdade social como a
principal mazela a ser combatida e exigir que os ricos comecem a pagar impostos
pra valer em nosso país, e fazer desta a grande bandeira de todos que de fato
querem um Brasil mais justo.
Seria este o primeiro passo para a solução de todos os outros males que nos
afligem, pois é aí que reside o busílis. Contudo, essas pessoas que tentam melar
a copa estão deixando claro que não estão preocupadas com o país e muito menos
com o seu povo.
O que está por trás dessa campanha é oportunismo de uns; certos carreiristas
políticos com medo de perder o “timing” de suas candidaturas; grupos e pessoas que
se sentiram alijadas na formação da atual coalizão governamental ou preteridas
na escolha para alguma sucessão; rebeldia tardia de alguns tontos em busca de
uma desculpa para extravasar o ódio que lhes é inoculado diuturnamente em suas
mentes e corações. Tudo isso com o apoio inestimável dos latifúndios midiáticos
e seus exércitos de penas de aluguel, muitos inclusive, podemos dizer sem medo
de errar, notórios incendiários.
Sobre a participação da extrema esquerda não se tem muito a acrescentar, uma vez
que a sua contribuição para tais acontecimentos é rigorosamente igual ao papel
que desempenhou nos idos de 1964 quando atuou como inocente linha auxiliar dos
interesses mais conservadores. Deixa-nos apenas a lamentável certeza de que
nada aprendeu com a história.
É mais do que evidente que o objetivo dos adeptos do Não Vai ter Copa – salvo
raras exceções que só existem para confirmar a regra - não passa de uma
tentativa de desgastar a candidatura oficial à reeleição ao Planalto e para
isso não estão medindo esforços, chegando mesmo a estumar essa matilha
hidrófoba das ruas para criar o clima de fim de mundo e produzir as imagens
necessárias para uso midiático e com isso mexer com o emocional da imensa
maioria silenciosa e, como sempre, precariamente informada que assiste a tudo,
perplexa, para no final ser convocada a decidir sob o impacto desses fatos,
isso com abundância de imagens negativas e as tradicionais dramatizações
histriônicas dos bufões de sempre.
Trata-se de uma aposta no escuro e, como tal, sem nenhuma previsão de que possa
funcionar. Afinal, a realização da copa no Brasil, segundo pesquisas publicadas
recentemente, tem apoio de 64% da população, apenas 25% são contra, 9% são
indiferentes e 2% não sabem responder. Diante desses números fica difícil não
enxergar que há uma sabotagem em curso, não contra a copa e sim contra o
Governo, que é transitório, só que os prejuízos não serão apenas deste Governo,
mas do país inteiro, o que escancara o oportunismo irresponsável dessa aventura
eleitoreira. O Governo que aí está tem um sem-número de defeitos e me parece
muito fácil fazer oposição a ele. Só que a oposição política e a grande mídia
opositora desejam mesmo é a volta ao passado, passado esse de mais privilégios
para os de sempre e não os avanços que a maioria necessita e deseja. Como já
foi dito, essa gente sofre é de nostalgia da senzala.
Chama a atenção também o fato da última copa ter sido realizada na África do
Sul – com o seu abismo social e a segregação racial que só acabou no papel - e
os que hoje criticam a sua realização no Brasil terem achado absolutamente
normal isso.
Outra questão intrigante pela sua dubiedade é a posição da rede de comunicação
monopolista e beneficiária exclusiva na transmissão do evento, portanto, é
importante saber até onde a Rede Globo vai ajudar na implantação de um ambiente
de caos que além de tudo pode não dar em nada ou até mesmo surtir o efeito
contrário ao desejado por esse consórcio de arrivistas.
Quem quiser secar o escrete nacional, pode fazê-lo, só não tenha a ilusão de
estar inventando algo, pois sempre existiu esse tipo de torcedor mal humorado.
Bom, de minha parte posso reafirmar é que preferia vê-la realizada em outras paragens,
contudo, apreciador que sou desse incomparável esporte não só vou acompanhar
todos os jogos que a minha disponibilidade de tempo permitir, como ainda torcer
pela nossa seleção, como sempre faço. Torcer também para que a luta pelo fim da
brutal desigualdade e outras reivindicações que sejam igualmente pertinentes
conquistem adeptos e chamem a atenção de todo o planeta; torcer para que as
chamadas obras de mobilidade urbana e outras que estão sendo realizadas
melhorem a vida das pessoas para além da copa; que sirva ainda para consolidar
uma imagem positiva do país e que seja essa uma grande e bela copa do mundo.
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
À Minha Revelia
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